quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

"Não gosto disso!" #01


Quantas vezes ouvimos os nossos filhos dizerem que não gostam de determinada comida sem sequer terem provado? Ou mesmo, dizerem que não gostam, semanas depois de terem comido um prato cheio. Falo por mim, isto consome-me, sobretudo com a L. que se expressa melhor verbalmente que a T. Mas não me limitei a aceitar estes "não gostos" de ânimo leve, muito menos a estimular o "não gosto". Comecei a pensar mais no assunto e a reflectir no porquê daquela reacção. 

Desde que a L. sabe falar (falar mesmo, não dizer algumas palavras, como está agora a T.), que levo constantemente com os "não gostos". Acontecem em duas situações bastante distintas: ou quando ofereço algo novo, que ela nunca tenha comido, ou quando é algo que come regularmente e subitamente passa a "não gostar". 

Hoje vou falar-vos de como lidar com a primeira situação, deixo a segunda para um segundo post, pois este tema requer atenção bem distinta.

Vamos colocar-nos no lugar deles. São pequenos, têm um leque de expressões verbais muito limitado, para comunicarem o que sentem. Através do "gosto" e "não gosto", eles conseguem reunir uma grande quantidade de sentimentos e de os comunicar. Têm como exemplo o "gosto muito de ti", que não cansamos de lhes dizer. Por isso, eles entendem que o gostar é um sentimento quente, confortável, agradável. Sendo a negação dessa expressão o contrário, algo desconfortável, incerto, que pode causar alguma tensão ou nervosismo. 

Posto isto, vamos tentar perceber o que esta pequenada sente, quando lhe colocamos uma comidinha nova à frente. É novo, é desafiante, é inseguro, tenho medo... "não gosto!" dizem eles, quando na verdade, se tivessem vocabulário para isso, diriam "não me sinto preparado para comer isso ainda". Vamos imaginar que estamos num qualquer mercado chinês, virados para uma barraca de insectos fritos no espeto. Hmmm... oferecem um para provarmos. Não podemos dizer que não gostamos, porque nunca provámos, provavelmente vamos dizer que não estamos preparados para experimentar e que precisamos de algum tempo para interiorizar a ideia de comer algo que está fora da nossa zona de conforto. 

Pois é isso mesmo que temos de fazer com os nossos pequenos. Respeitar as suas inseguranças no que toca a alimentos novos! É normal e até nós passamos por isso. E ajudarmos a ganharem confiança para que experimentem e comam coisas novas.

Deixo-vos algumas dicas de como ajudar os pequenos nestes momentos de tensão. 

- Em primeiro lugar é não limitar tanto esta zona de conforto deles. Ir oferecendo coisas novas constantemente, para abrir a perspectiva dos pequenos em relação à comida. É por isso que experimento coisas novas todas as semanas, para desafiar as miúdas a experimentarem pratos diferentes e não terem uma zona de conforto, no que diz respeito à comida, tão definida. Por vezes os pais tendem a "obedecer" cegamente aos "não gostos", não procurando o verdadeiro significado da expressão. Acabam por não oferecer esse alimento, tendem a não se aventurarem a fazer coisas novas, pois nenhuma mãe empenhada em cozinhar um delicioso jantar que ouvir um "não gosto" do seu rebento. Há que contrariar esta tendência. 

- Mostrar-lhes como os alimentos se transformam, desde o seu aspecto original até à forma que chegam ao prato. Esta semana fiz um jantar crudívoro e a L. mostrou-se muito reticente em provar desde início. Para ajudar a que experimentasse, mostrei-lhe todas as etapas. Dei-lhe um caju a provar, que ela gostou, transformei o caju em pasta, dei a provar novamente, e ela gostou. Experimentou o tomate seco, os pinhões, os brócolos crus, o pesto de tomate seco e gostou. Comeu a curgete crua e gostou. No final, quando o jantar estava montado no prato, não foi difícil para ela perceber as diferentes partes e comer tudo com grande satisfação. 

- Oferecer pequenas porções, para que eles não se sintam pressionados a comer "tuuudo", mas sim a provarem um bocadinho. A L. às vezes quando vê um prato cheio (por exemplo, num restaurante), diz logo que "não gosta". O que faço é dar-lhe um prato pequeno, e vou pondo aos poucos pequenas porções de comida que ela vai petiscando e perguntando o que é. Quando damos por ela, comeu o prato cheio que tinha rejeitado ao início. 

- Por fim, mas não menos importante, respeito e paciência para com a criança, pelo seu ritmo e os seus tempos. É fundamental respeitarmos a forma orgânica como os nossos filhos crescem e se preparam para novos desafios. Para algumas crianças, a alimentação pode mesmo representar um desafio, cabe-nos enquanto cuidadores, ajuda-los a lidar com essa tensão com muita calma e sabedoria. 

Agora que a L. tem quase 4 anos, comecei a ensinar-lhe que não se diz que não se gosta, sem se ter provado. Vou-lhe sugerindo algumas alternativas de respostas entre o "não quero provar agora", "não me sinto preparado para provar agora", mas a que ela usa mais para se expressar é o "tenho medo de experimentar!", que é bem mais próximo do sentimento real, do que o "não gosto". 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O nosso meatless dinner #37 - a nossa primeira experiência crudívora


Eu: hoje vou fazer um jantar um bocadinho diferente. Vai ser um jantar cru, que não é cozinhado.
L.: isso não me parece nada boa ideia, mãe. 

O futuro deste jantar parecia condenado à saída da escola das miúdas. Mas não havendo alternativa, segui em frente. 

Fui preparando as diferentes partes e dando a provar às miúdas. O creme de caju foi um sucesso, o pesto de tomate seco moderadamente apreciado e a curgete crua uma verdadeira surpresa.



A L. comeu tanta curgete crua antes de jantar, que temi não ter suficiente para fazer as lasanhas. 




A T. lambeu o máximo de creme de caju que conseguiu e ainda roeu alguma curgete. Mas no final pedia-me "poupa" (aka sopa). É uma miúda mais tradicional, no que toca à comida.



Apesar do mau presságio, a L. foi a maior surpresa. Comeu com imensa satisfação e disse que o meu jantar cru estava delicioso.


Um verdadeiro sucesso!

O que posso dizer é que é uma experiência muito diferente daquilo que o nosso paladar está habituado. Leva tempo até nos abstrairmos que tudo o que está ali está cru e apreciarmos os sabores naturais que tem. Apesar de ter estranhado na primeira grafada, a verdade é que se entranhou em menos de nada. 

Obrigada Joana por esta magnífica experiência e pela revelação da minha mini-crudívora cá de casa.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Segunda Sem Carne, mas com... #10


Conheci o blog da Joana, Just Natural Please, há pouco tempo, mas o suficiente para seguir avidamente e deliciar-me com as dicas e receitas. 

A Joana é vegana há 2 anos, associado ao veganismo dela tem uma vertente crudívora, que, para quem não conhece, consiste em ingerir os alimentos crus. Como sou muito curiosa nestas temáticas, convidei a Joana a apresentar uma receita vegetariana, com o desafio de ser crudívora! Seria uma estreia aqui no blog, nesta rubrica, será que ela aceitou?


LC - És a primeira blogger crudívora e vegana que sigo (nem sei dizer se há muitas). Qual a mensagem que tentas passar através do teu blog?

Joana (J) - Antes de mais deixa-me esclarecer que não sou 100 % crudívora. Aliás, a grande maioria das receitas que faço para o meu blog não são crudívoras. Fui totalmente crudívora durante 3 – 4 meses quando descobri o veganismo e a alimentação crudívora mas depois voltei a introduzir alguns alimentos cozinhados, pois apesar de me sentir muito bem comendo apenas frutas e vegetais crus não fazia muito sentido para mim deixar de fora muitos alimentos que só podemos comer cozinhados, como arroz, batata, leguminosas secas, etc. Geralmente como fruta e vegetais crus durante o dia e ao jantar junto alguma coisa cozinhada, sempre de forma muito simples (sem gordura adicionada, sem sal, sem grandes temperos), a uma grande salada. A mensagem que tento passar com o meu blog é que os alimentos que a terra nos dá, no seu estado bruto e integral, devem ser a nossa primeira opção para viver com saúde e vitalidade e que devemos evitar tudo o que é refinado, processado e transformado. Quero também passar a ideia de que o prazer à mesa vai sempre existir. É tudo uma questão de tempo e persistência até o paladar se habituar à alimentação saudável e “limpa”.


LC - Como foi a reacção da família e amigos à tua decisão de mudança de estilo de vida? Sentes que essa opção afectou as tuas relações sociais?

J - Felizmente todos à minha volta (família e amigos) me apoiaram na minha decisão de seguir este estilo de vida. Noto que confiam em mim e nas minhas decisões e por isso aceitaram a minha mudança sem qualquer crítica. Para isso também ajuda o facto eu própria tentar não fazer juízos de valor em relação ao que eles comem e por isso o respeito é mútuo. Acredito que mostrar que nos sentimos bem, felizes, com energia e com menos problemas de saúde é a melhor influência que podem ter e com o tempo noto que, quer a minha família quer alguns amigos, começam a interessar-se mais por alimentação saudável e veganismo e a fazer algumas alterações nos seus estilos de vida, o que me deixa muito feliz. A nível social, houve um período de adaptação e de aprendizagem mas agora faço uma vida social normal, como fazia antes. Em jantares fora há quase sempre opção, sobretudo se pedirmos com gentileza. Em casa de amigos, ou eu levo alguma coisa para comer e para partilhar ou eles próprios já preparam pratos que eu também possa comer.


LC - O que sentes que as pessoas no geral pensam sobre o vegetarianismo/veganismo e o crudivorismo? Penso que sobretudo este último tema é ainda muito desconhecido pela maioria das pessoas.

J - O vegetarianismo já é bastante conhecido e com muitos adeptos (embora me entristeça um pouco ver que muitos vegetarianos vivem à base de queijo, ovos e batidos proteicos, continuando a deixar os vegetais para seguindo plano). Agora o veganismo ainda não é muito bem compreendido e há ainda uma certa confusão na cabeça das pessoas. Acho que muita gente ainda associa o veganismo a um movimento “hippy” ou algo do género. O crudivorismo em Portugal é relativamente recente e acho que apenas uma minoria das pessoas já ouviu falar sobre ele. Ultimamente tenho observado mais divulgação sobre estes temas e uma mudança de mentalidade muito positiva, mas ainda há um longo caminho para percorrer e muitos mitos para quebrar. Mas acredito que com o tempo, cada vez mais as pessoas se vão aperceber que o veganismo é uma opção fácil, barata, ecológica e ética para viver a vida com mais saúde, com mais energia e vitalidade e com mais respeito pelo ambiente, pela natureza e por todos nós.


LC - Conhecias as meatless mondays, ou segundas sem carne? O que pensas deste movimento?

J - Sim, conhecia. Acho que a primeira vez que ouvi falar foi no talk show da Oprah. Acho uma ótima iniciativa e dou-te os parabéns por incluíres esta iniciativa no teu blog. Acho um bom ponto de partida e penso que pode ajudar muita gente a experimentar pratos vegetarianos e veganos, a ganhar gosto pelos vegetais, a habituar o paladar e a se aperceber que continua a haver prazer numa mesa vegana. O que me preocupa é que com este movimento se instale a ideia de que desde que se faça uma “meatless Monday” por semana está tudo ok, o que é errado. A nossa alimentação precisa de uma mudança de paradigma urgente para fazer face às alterações climáticas e ambientais que se estão a verificar. Muita gente não sabe, porque é assunto tabu, mas a maior causa de emissões de gases tóxicos para a atmosfera e a maior causa de desflorestação da floresta amazónica é produção de animais para consumo humano. Cerca de 70 % da agricultura realizada no globo terrestre destina-se à alimentação de animais para nós consumirmos. Todos esses recursos dariam para alimentar sete vezes mais pessoas se nos alimentássemos diretamente do que vem da terra. Isto para não falar no aspeto “saúde” e em como a grande maioria das doenças de que sofre a sociedade ocidental são causadas por excesso de proteína animal, muitos produtos refinados e com aditivos alimentares. Depois do anúncio da OMS sobre a relação entre a carne e o cancro, muitos vieram apaziguar a mensagem dizendo que comendo “com moderação” não há problema. O problema é que a comum “moderação” é ainda um grande excesso. A proteína animal continua ainda a ser vista como o centro do prato e os alimentos de origem vegetal continuam a ser vistos como o acompanhamento. Quantas vezes ouvimos dizer às nossas crianças “pelo menos come a carninha, podes deixar o arroz…”? Os alimentos de origem vegetal têm que passar a ser a base da nossa alimentação e a proteína animal tem de passar a ser secundária. Por isso, na minha opinião as “Meatless Mondays” deveriam estender-se a mais dias da semana de forma banal.


Quanto à receita deixada, a Joana explica...

A receita que preparei para ti e para os teus é uma Lasanha Crudívora de Natal. Apesar de Lasanha não ser o primeiro prato que nos ocorre quando pensamos na ceia de Natal, esta Lasanha tem as cores do Natal e é carregada de sabores e texturas reconfortantes. Além disso, achei que seria uma boa estratégia para incorporar mais vegetais “na cadeira da papa”.



Lasanha Crudívora de Natal (Vegan, Crudívoro, Sem Glúten, Sem Açúcar, Sem Soja)

Serve: 2 adultos ou 1 adulto e 2 crianças
Tempo de Preparação: 1 hora para demolhar + 15 minutos de preparação 


Ingredientes:

Para o Creme de Cajú:
1 chávena de Cajús Crus (~140 g), demolhados em água durante 1 hora
2 colheres de sopa de Levedura de Cerveja (é opcional mas dá um sabor agradável a queijo)
1 colher de sopa de Sumo de Limão
1 dente de Alho (opcional, pode ser substituído por alho em pó)
2 colheres de sopa de Salsa Fresca picada
1/3 chávena de Água
1 pitada de Pimenta Preta (opcional)
1 pitada de Flor de Sal (opcional)


Para o Pesto de Tomate e Bróculos:
½ chávena de Tomates Secos ao Sol (de preferência sem sal e sem óleo), demolhados em água durante 1 hora
½ chávena de Bróculos (apenas os raminhos tenros)
½ chávena de folhas de Manjericão fresco
½ chávena de Pinhões (~25 g)
1 colher de sopa de Azeite Virgem (opcional)
½ colher de sopa de Sumo de Limão
½ colher de chá de Orégãos secos
1 pitada de Pimenta Preta (opcional)
1 pitada de Flor de Sal (opcional)


Para montar e decorar a lasanha:
1 Curgete média, cortada em fatias finas com o mandolim ou faca
Tomates Cereja, cortados ao meio
Raminhos de Brócolos
Folhas de Manjericão



Método de Preparação:

1. Colocar os cajús numa tigela e adicionar água e deixar de molho durante cerca de 1 hora. Fazer o mesmo com o tomate seco.


Para preparar o Creme de Cajú:

1. Depois de demolhados, escorrer os cajús e colocá-los no processador juntamente com os restantes ingredientes para o creme, exceto a água e a salsa. Processar até formar um creme homogéneo, adicionando a água aos poucos até obter a consistência desejada (utilizei 1/3 chávena).

2. Adicionar a salsa e pulsar para incorporar. Corrigir temperos se necessário. Reservar.


Para preparar o pesto de Tomate e Brócolos:

1. Depois de demolhados, escorrer os tomates e colocá-los no processador. Adicionar os restantes ingredientes exceto os raminhos de brócolos. Processar até formar uma pasta. Adicionar uma colher de sopa de água se ficar demasiado espesso.

2. Adicionar os raminhos de brócolos e pulsar para incorporar. Corrigir temperos de necessário. Reservar.


Para montar a lasanha:

1. A lasanha pode ser preparada individualmente em cada prato ou num recipiente conjunto. Começar com uma camada de curgete e adicionar uma camada de creme de cajú. Colocar uma fatia de curgete sobre o creme e adicionar uma camada do pesto de tomate e brócolos. Repetir o processo, terminando com uma camada de creme de cajú.

2. Decorar a lasanha a gosto com folhas de manjericão, raminhos de brócolos e metades de tomate cereja. Servir de imediato ou deixar intensificar os sabores durante cerca de 30 minutos.



"Espero que tu e a tua família gostem desta experiência vegana crudívora! Muito obrigada pelo convite para estar “Na Cadeira da Papa” e um Natal cheio de alegria, saúde, amor e uma mesa recheada de coisas boas para vocês!"

Estou super entusiasmada para experimentar esta receita! Obrigada nós, Joana.