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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

"Food Matters"


"Food Matters" foi um dos primeiros documentários sobre comida que vi e que recomendo a toda a gente que procura questionar-se e pensar mais sobre alimentação saudável. 

Considero o documentário bastante revelador, para quem está disposto a começar a pensar sobre estas questões. Este é um bom ponto de partida, mas recomendo muita filtragem da informação, pois o documentário retrata uma realidade que não é a nossa: a americana. Felizmente em Portugal ainda temos uma cultura alimentar baseada em produtos orgânicos, apesar de os processados fazerem parte dos nossos armários e despensas. O documentário vai ao encontro destas questões, de como o que ingerimos afecta o nosso corpo, o nosso humor, a nossa saúde. 

Mas não vos vim falar deste documentário ao acaso! O site relativo ao filme, assim como a página de Facebook são extremamente activas! Publicam com regularidade receitas e dicas para um estilo de vida mais saudável. Recomendo que sigam. Amanhã lançam um livro de receitas (que deve ser fenomenal) e para comemorar esse lançamento estão a oferecer aulas online de "clean eating"! Durante 3 dias teremos acesso a videos de 15 receitas do livro. Para isso só temos que nos inscrever, e por nos inscrevermos oferecem em PDF 5 receitas do livro para experimentarmos, mais 10 receitas só de chocolate (já tenho as minhas e valem a pena). Quanto não vale?


Eu cá estou em pulgas para ver os vídeos. E já agora se o Pai Natal estiver a ler este post, fica a ideia deste livrinho para prenda, que eu vou AMAR!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Faz hoje 1 ano!


Faz hoje um ano estávamos assim, a T. de um lado do tabuleiro e eu do outro lado. Iniciávamos assim a alimentação complementar, a poucos dias de completar 6 meses de vida e 6 meses de amamentação exclusiva. Iniciávamos uma nova etapa, uma importante etapa.

O início da diversificação alimentar da L. e da T. foram um pouco diferentes. No caso da L. tinha muita curiosidade em relação a esta nova fase, alguma pressa, quem sabe. Mas também aconteceu, porque a L. tinha um intestino preguiçoso e em conversa com a pediatra concluímos que talvez a introdução de legumes viesse ajudar. Apontámos para depois dos 5 meses e bem dito, bem feito. No próprio dia que comeu a primeira sopa, tratou do assunto "fralda" sozinha. Foi um alívio. Mas olhando à distância do tempo, sinto que não a "ouvi", nem respeitei o seu momento. Na altura não sabia como, mas com o tempo fui aprendendo e fui respeitando cada vez mais os tempos dela, quando é que ela estava preparada para novas aventuras, sobretudo alimentares.

Com a T. foi diferente. A T. começou a dar sinais que queria algo mais que o leite materno aos 5 meses. Um dia, agarrou-se a um naco de maçã e sugou-o até à exaustão. Eu achava cedo, ela "dizia-me" que não. Lembro-me bem o ar fervoroso com que olhava para a comida da irmã, lambia os lábios, esticava-se para agarrar... a L. nunca me tinha feito aquilo antes de experimentar a sua primeira sopa. Fui adiando, por convicção minha e porque dentro da minha cabeça só ouvia "amamentação exclusiva até aos 6 meses". Até que naquele dia acordei e pensei "vá, se ela tivesse nascido uma semana antes, hoje já teria 6 meses...". Comprei legumes frescos e preparei-lhe a primeira sopa: batata, cenoura, cebola e alface. O ar de excitação dela ficará para sempre gravado na minha memória, como quem grita "finalmente percebeste!!". Correu bem, comeu meio prato e no dia seguinte comeu um inteiro. Desde então que come sempre tudo, que adora tudo (não gosta de cenouras cozidas e cogumelos, vá), que come com gosto e satisfação. 



O que pretendo que se retire desta minha exposição é: respeitem o bebé. Eles sabem, de alguma forma sabem, e avisam (!!!), quando as coisas devem acontecer. A marca dos 6 meses não é ao acaso, acredito (e começa a provar-se cada vez mais) que seja aquela em que a grande maioria dos bebés está preparada, sobretudo fisicamente. Acho que hoje em dia os bebés perdem a exclusividade do aleitamento (tanto materno como artificial) cedo demais, seja por pressão das famílias, dos profissionais de saúde, até mesmo da própria sociedade e das leis por que se regem. Por isso, olhem para os vossos bebés e tentem perceber se é hora de diversificar a alimentação, ou se será melhor esperar mais um bocadinho, sob a premissa que se inicia aí a longa e árdua tarefa de educação alimentar.

Devem estar atentos aos seguintes sinais:

- quando metem qualquer coisa na boca, já não põe a língua para fora (ou seja, perdem o reflexo de protrusão da língua, um reflexo de protecção das vias aéreas).

- sentam-se bem direitos sem ajuda.

- mostram interesse pela comida dos pais ou irmãos e já fizeram o clássico "furto de comida da mesa", que é tirarem qualquer coisa que está no prato ou na mão dos pais e levarem à boca.*

*por Dr. Mónica Pina, Médica, Consultora de Lactação, Moderadora da La Leche League

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Mas o meu filho não tem dentes!



Leio com frequência mensagens de mães à procura de dicas para introduzir comida dita "inteira" ao seu bebé. Quando fazer, como fazer, o que oferecer e rematando sempre com um "mas o meu bebé ainda não tem dentes!" Ora... isto pouco interessa, se querem saber. E digo isto, porque tive uma desdentada até aos 10 meses, que quando descobriu os pedaços, não queria comida triturada.

Pois é, a T. não teve dentes até aos 10 meses (a L. foi uma despachada e aos 7 meses estava servida de dentes). E os dois primeiros que lhe apareceram só começaram a servir para alguma coisa lá para os 11 meses, quando começaram a ter tamanho de gente. Vieram mais quatro aos 12 meses, assim tipo jackpot, e só agora aos 17 meses, os molares começaram a dar ar da sua graça. 

O que tenho a dizer-vos é que isto não é uma questão de dentes, mas de sensibilidade para perceber que eles já sabem como funciona a boca e estão preparados para mastigar.


Sou-vos muito sincera, adoro o método Baby Led Weaning para introduzir a alimentação complementar aos bebés. Vai-se directo ao assunto, oferecem-se os alimentos como são, sem atalhos, com claridade e honestidade para o bebé. Não há cá "feitiços" de sopa mais doce, mais amargada, mais azeda, não há sabores camuflados, cores misturadas, nem texturas imperceptíveis. Está ali tudo como é, às claras, os brócolos são brócolos, são verdes e tenros, uma cenoura é uma cenoura, cor-de-laranja e doce. Mas, eu não tive coragem de oferecer logo alimentos assim às minhas bebés. Fui vítima do sistema das sopas e dos purés, porque me transmitiam mais confiança como formas de oferecer a alimentação complementar às minhas filhas. E no final de contas, isso é o mais importante: a confiança. Se estivermos confiantes, transmitimos essa confiança ao bebé e é meio caminho para que tudo corra bem. 

Como disse, não esperei que a T. tivesse dentes para me aventurar para além das sopas. Com 7 meses, tanto a L. como a T. começaram as açordas e farinhas-de-pau e em poucos dias andavam com a boca às voltas, com os maxilares para cima e para baixo a fazer coisas muito para além de abrir e engolir. As açordas e farinhas-de-pau têm uma consistência pegajosa, que de alguma forma deve provocar esse efeito. Mas só quando passei um pedaço de brócolos e cenoura para as mãos, percebi que estavam preparadas para a deixar os purés finamente triturados. 

Em suma, isto não é uma questão de dentes, mas sim de oportunidade. Como o pediatra Carlos González muitas vezes refere, existem janelas de oportunidade para os nossos bebés fazerem determinadas coisas. O curioso é que somos muito atentos a várias delas, como gatinhar, andar ou falar, mas no que toca a alimentação temos mais dificuldade em perceber. Mas é como tudo, uma questão de tentar e de os deixar tentar. Tal como um bebé, quando se coloca de pé, tenta dar um passo e sabemos quase de certeza que vai cair, não vamos a correr senta-lo. Não. Deixamos que tente, colocamos os braços para ajudar a cair e não se magoar. Com a alimentação é igual: deixar que tentem e ficarmos ao lado a amparar qualquer perigo. 


A T. nunca precisou de dentes para comer o que lhe oferecia, nunca se engasgou com pedaços (engasgou-se com puré de maçã!) e bastou-me ouvi-la, vê-la e sentir que estava preparada (e que eu também). Por isso, mães de bebés sem dentes, nada temam, olhem para o bebé com atenção e percebam se eles estão prontos para uma nova aventura alimentar. 


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Concordamos todos, não concordamos?

"À medida que o meu filho começava a vida e eu começava este livro, parecia que tudo o que ele fazia girava em torno da comida. Estava a mamar, ou a dormir depois de mamar, ou a ficar rabugento antes de mamar, ou a livrar-se do leite que mamara. Ao acabar este livro, ele consegue desenvolver conversas bastante sofisticadas e, cada vez mais, a comida que ele ingere é digerida a par das histórias que lhe contamos. Alimentar o meu filho não é o mesmo que alimentar-me a mim: é mais importante. É importante porque a comida é importante (a sua saúde física é importante, o prazer de comer é importante) e porque as histórias que são servidas com a comida são importantes."


Jonathan Safran Foer em "Comer Animais"




Ando a ler este livro (já faz umas boas semanas) e esta passagem ficou bem vincada e foi o que me identificou com o autor. Se não forem os nossos filhos a colocarem em questão (mesmo que ainda não falem) todas as nossas convicções, mesmo aquelas que temos em relação à alimentação, o quem fará?

(já agora, recomendo a leitura)

sábado, 2 de maio de 2015

Vida no campo #01




Viemos até casa dos avós, até ao campo, até ao ar puro. Estamos capazes de ficar cá para sempre, mas não pode ser. Uma manhã em que a L. aprendeu que as batatas vêm da terra, que é preciso planta-las, rega-las e cuidar delas para que cresçam. Que a planta da batata não serve para pôr na sopa (por muita insistência dela e para grande infelicidade). Uma manhã para perceber, que os legumes para a sopa não saem de uma máquina, mas são criadas com as nossas mãos e o nosso empenho. Foi uma manhã realmente feliz (e com um bom banho para rematar).







A T. ficou só a observar, arriscávamos a tê-la a comer a terra e as batatas cruas (boca mais rica de sua mãe).

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O dia em que passei a gostar de Carlos González


Não era particular fã de Carlos González, em parte, pela popularidade que ganhou, e por fazerem das palavras dele citações bíblicas. Senti que era uma moda, e eu cá sou pouco de modas. Ora, quando via artigos que tinham o nome dele no título, passava à frente, já estava a enjoar, já não podia ouvir falar do senhor.

Ontem, tudo mudou, e tem agora aqui uma fiel fã (bate na boca, filhinha, bate). Num dos grupos de Facebook onde ando, uma leitora atenta do blog (vou acreditar) partilhou um magnífico vídeo deste senhor a falar sobre a alimentação de bebés e crianças e escreveu-me as seguintes palavras "Vi este video sobre alimentação. Acho que vai gostar." Como é possível pessoas "estranhas" me conhecerem tão bem?

Quando vi o nome do senhor, pensei "oh não, mas há tema que o senhor não goste de falar?" Dei o benefício da dúvida, e como é um tema que me é muito querido, resolvi tirar um pedaço do meu tempo para ver. 

Descobri um profissional extremamente inteligente, com um sentido de humor excepcional, e rendi-me. 

Recomendo-vos vivamente a verem o vídeo no integral, tem legendas em português (do Brasil) e tudo, mas deixo-vos as passagens com que mais me identifiquei, e com as quais partilho inteiramente a opinião do senhor.


Preferimos comer comida normal, escolher a nossa comida, comer a quantidade que temos vontade, embora isso signifique que algumas pessoas errem. (...) Queremos o privilégio e escolher a nossa alimentação, ainda que ela não seja perfeita, e queremos que os nossos filhos tenham esse mesmo privilégio. (...) Que sejam livres para decidir a sua alimentação. E esse é o objectivo da alimentação complementar dos bebés.

(...)

A criança que leva à boca sozinha um único fio, um macarrão, um único pedaço de pão, um único pedaço de frango, está avançando no caminho em direcção a comer de forma normal. (...) Está avançando, está aprendendo coisas importantes! Está aprendendo a agarrar a comida com a mão, a levá-la à boca, a distinguir os sabores e as texturas dos alimentos. Está aprendendo a tomar decisões, "isto gosto, isto não gosto". (...) Ele não tem que gostar de tudo igualmente. (...) Está aprendendo que comer é algo agradável.

Por outro lado, a criança na qual enfiam 250gr de puré de legumes, tudo triturado... às vezes há crianças às quais dão legumes no biberão, quase repugnante! Dão a elas 250gr de puré de legumes, à base de distraí-las, de tapar narizes para que abram as bocas e enfiar, e enganá-las, e a criança protestando e chorando, e os pais insistindo, "esse menino não aprende nada!" Ele não aprendeu a agarrar a comida, não aprendeu a metê-la na boca, não aprendeu a mastigar, não aprendeu a deglutir, é tudo líquido. Não aprendeu a distinguir os sabores e texturas dos alimentos, porque tudo tem a mesma textura, está tudo batido, e tudo tem o mesmo sabor, porque está tudo misturado. Não aprendeu a tomar decisões, vão enfiar da mesma maneira, se ele quiser ou não. Essa papinha foi inútil, a criança comeu tudo e não aprendeu nada.

(...)

A criança que leva meses comendo purés na base da obrigação e de ser distraída não está mais perto de comer um prato de macarrões. Está ainda mais longe. Temos que tirar o puré, desacostumá-la ao puré, que tanto nos custou a acostumá-la, e ela ainda tem que comer o seu primeiro macarrão.

(...)

Comer de forma normal consta de duas partes: uma, é comer comida normal, e depois, comê-la de forma normal. A forma normal é sem triturar, com a sua própria mão, ou com o seu próprio garfo, ou a sua própria colher, mastigando levemente e comendo o que quiser, quando quiser, não comendo o que obrigam a comer.

(...)

E a comida que eu como normalmente, será saudável para o meu filho? Pois vá averiguar. O importante para a futura saúde  da criança, não é o que ela vai comer aos 6 meses, ou o que vai comer entre os 6 e os 12 meses. O importante é o que ela vai comer durante os próximos 30 anos, que será provavelmente o que ela comerá a vida toda. 

Por exemplo, quando costumamos dizer que não se deve pôr sal na comida dos bebés, que não se deve dar açúcar (...), não é porque nessa idade eles fazem mal. É porque nós gostaríamos que as crianças se acostumassem a ter uma alimentação mais saudável que os seus pais. Mas não estamos a conseguir, é um fracasso total. Porque a mesma criança que aos 8 ou 9 meses tem uma dieta perfeita, uma dieta que seria aprovada por qualquer supervisão, o seu legume fervido, o frango na chapa, e nada de sal, e nada de açúcar, tudo maravilhoso... essa mesma criança aos 2 anos come batatas fritas de pacote, come rebuçados e doces, e bebe coca-cola. Para isso, não precisava começar tão bem. Se aos 2 anos você começa a dar ao seu filho batatas fritas de pacote e coca-cola, você já pode começar aos 6 meses, que diferença faz? 
O que vai determinar a pressão arterial dessa criança, quando ela tiver 30 anos, não é o que ela tomou aos 6 meses, mas sim quanto sal ela tomou por 30 anos, quanto açúcar ela comeu por 30 anos, quanta gordura saturada ela comeu por 30 anos. Então, o que se deve fazer não é os pais comerem qualquer porcaria e darem ao filho a dieta saudável. Porque esta criança no ano que vem, ou em 2 anos no máximo, vai comer o mesmo que seu pais. O importante é que os pais tomem a decisão consciente de fazer uma dieta saudável. (...) E o que nós, profissionais de saúde, deveríamos fazer, não é explicar a uma mãe como preparar uma papinha de bebé perfeita, mas sim explicar às mães como preparar uma dieta saudável para a família toda.

(...)


Muitas famílias se preocupam, se a criança vai engasgar com a comida. Se ela come a comida com pedaços, é claro que ela vai engasgar. É absolutamente impossível que uma criança a comer sólidos e não se engasgue nunca. Da mesma forma, é impossível que elas comecem a caminhar e nunca caiam no chão. (...) Se não deixarmos que ela prove sólidos com 8 meses, com 6 meses, com medo de que se engasgue e não lhe oferecemos até os 2 ou 3 anos, o que vai acontecer é que ela vai engasgar com 2 ou 3 anos.

(...)

As crianças passam, ao longo do seu desenvolvimento por períodos chamados "janelas de oportunidade", no quais aprendem determinadas coisas, em que desejam aprender determinadas coisas. Chega um momento em que tudo o que a criança deseja é gatinhar, chega um momento em que tudo o que ela deseja é ficar em pé, chega um momento em que tudo o que ela deseja é andar, falar ou comer. (...) Quando deixamos a criança fazer as coisas no momento em que ela sente esse desejo, ela se esforça, repete algumas vezes e logo aprende a fazê-las bem. Mas é muito fácil cair na tentação de não deixar. Se você deixa o seu filho comer com a própria mão, ele come pouquinho, come devagar, se suja e as coisas caem no chão. (...) É muito fácil cair na tentação de você fazer tudo. (...) Mas ele não aprendeu nada. É importante deixar ele fazer as coisas na hora em que sente esse desejo.

(...)

Jamais, jamais deve obrigar uma criança a comer, por nada desse mundo, sob nenhuma justificativa, em nenhuma circunstância, por nenhum método.

(...)

Não se deve obrigá-las [as crianças] de boas maneiras.

(...)

Jamais se deve usar a comida como prémio ou castigo.

[edit]: Entretanto o vídeo foi retirado da internet. 


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Frutose vs Sacarose (e as outras *oses e *ols todos)


Tenho sido várias vezes questionada, sobre a forma como adoço algumas das receitas que partilho. Certo que não uso açúcar refinado, mas uso fruta, ou seja, frutose, que é açúcar. 

Mas então se é tudo açúcar, qual a diferença? 

A diferença está na complexidade dos açúcares. O açúcar refinado, é um açúcar extremamente simples, e de rápida e fácil absorção por parte do nosso organismo. Por isso, provoca picos glicémicos no sangue e não se traduz em saciedade para o nosso organismo, havendo a tendência para comer mais logo de seguida. O arroz, por exemplo, tem açúcares complexos, e de lenta absorção, traduzindo-se numa maior saciedade, durante mais tempo. A frutose está ali pelo meio. É um açúcar mais complexo que o açúcar refinado, mas não tanto como os dos cereais, e a sua absorção é mais lenta que do açúcar refinado, mas não tanto como a dos cereais. Ora portanto, concluímos, que de entre todos os açúcares, é preferível escolher um que seja mais complexo, e de preferência que esteja presente num alimento rico em fibras e vitaminas, como a fruta.

Quanto a mim, o ideal é não adicionar açúcar à alimentação. Uma alimentação variada em legumes, frutas e cereais, fornece o açúcar necessário diariamente. Mas também, defendo, que grande parte da educação alimentar das nossas crianças está na variedade e na forma como apresentamos alguns alimentos. E por isso faço o que faço, experimento estas receitas e partilho com todos vocês. Não alimento as minhas filhas à base de queques, bolos, panquecas e bolachas. Comem muito de vez em quando, nem tanto com a periodicidade com que publico (faço algumas receitas e guardo para publicar depois). Também não acredito que seja assim que se deva alimentar um bebé ou criança. Mas não sejamos radicais, e de vez em quando, um pouco de variedade nos lanches e snacks ajuda a estimular o paladar e o interesse por todos os outros alimentos. Para mais, é preferível que comam qualquer coisa feito em casa por nós, que se rendam aos produtos de supermercado.

Sobre as tâmaras, que tanto uso

Verdade que uso muitas vezes tâmaras nas minhas receitas. Mas se vos disser, que todas as receitas publicadas até hoje, todas mesmo, usei cerca de 300gr de tâmaras no total? Sim, cerca de uma embalagem e picos de tâmaras. 

Sei que muita gente gosta de saber os números, por isso, aqui vai: 100gr de tâmaras contêm cerca de 32gr de frutose. Parece muito, não é? Para terem uma ideia, em relação à receita de bolachas de ontem, usei aproximadamente 125gr de tâmaras, ou seja, 40gr de frutose, que deu para cerca de 40 bolachas. Portanto, cada bolacha possui cerca de 1gr de frutose (não esquecer dos açúcares naturais dos outros ingredientes) e imensas fibras, vitaminas e outras coisas espetaculares que os restantes gramas de tâmaras possuem. Afinal, não é assim tanto. E parecerá ainda menos, se pensarmos que estas bolachas são um snack, para comer a meio da manhã ou da tarde, de vez em quando. E claro, ter sempre em atenção à sua integração na restante dieta desse dia. 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Açúcar? Não, obrigada.



A reportagem da SIC, "Somos o que comemos" ainda está a latejar na cabeça de muita gente, sobretudo pais e cuidadores de crianças. Já escrevi sobre este tema, mas haverá sempre muito a escrever, muito a dizer, e nunca será suficiente para  deixar bem presente o alerta do excesso de açúcar na nossa alimentação. 

Como disse anteriormente, a primeira coisa que fiz quando comecei a ter consciência dos perigos do açúcar, foi banir produtos processados cá em casa. "Tudo o que é processado e vem de pacote, tem açúcar", diz a Pediatra Júlia Galhardo na reportagem. Não posso concordar mais. Começámos a achar natural e normal comer o que vem das prateleiras do supermercado, sem questionar. Porque razão venderiam algo que nos faz mal? Na verdade, não faz mal. Na verdade, a falta de bom senso do consumidor é que o prejudica. Um sumo uma vez por mês, não fará mal. Um sumo uma vez por dia, já fará. 

Olhar para o rótulo e procurar "açúcar", não basta. O "açúcar" tem muitos nomes, como a Pediatra Júlia Galhardo referiu na reportagem: dextrose, maltose, maltodextrina, frutose, xarope de milho, e tenho mais uns quantos para acrescentar, sorbitol, galactose, lactose, polidextrose, manitol, xilitol... Muitos destes açúcares estão naturalmente presentes nos alimentos que ingerimos diariamente, mesmo os de origem orgânica: a fruta, os legumes, o leite e os cereais. Identificamos rapidamente a frutose e a lactose. A diferença, é que são açúcares complexos, que são ingeridos com as fibras dos alimentos que os possuem, e por isso de absorção mais lenta que os açúcares simples*. 

O "sem açúcar" é mito. Não existe tal coisa, a não ser no sal (e mesmo assim tenho as minhas dúvidas). Se diz "sem açúcar" e é doce, é porque tem "açúcar". Muitas mães vivem na ilusão de dar bolachas sem açúcar aos filhos, achando assim, que será mais saudável. As bolachas podem não conter açúcar, mas de certeza que têm adoçantes e edulcorantes, e sinceramente, não sei o que é pior dar. Já sei o que estão a pensar... as bolachas de água e sal? Também têm açúcar! (incrível, hein?) 

Agora que já percebemos isto tudo, faz sentido, falar em não dar papas aos filhos por causa dos açúcares, quando depois se vão dar papas de fruta e bolachas? Mesmo, que sejam bolachas sem açúcar? Pois, foi o que pensei também: não! Podem-se fazer papas caseiras, tão fáceis, rápidas, saborosas, nutritivas e a palavra chave, saudáveis. Bastam cereais, água, e se quiserem fruta e leite. Assim simples!

Portanto, olhar para a distribuição nutricional, e ver a quantidade de açúcar que um alimento tem, pode não ser suficiente, se não soubermos de onde vem esse açúcar. Acaba por ser uma trabalheira, ter que andar a ler rótulos, atrás de rótulos, atrás de rótulos, quando era suposto confiarmos nas palavras "infantis", "para bebés", "para crianças" e "sem açúcar adicionado". Eu como preguiçosa nata que sou para essas coisas, simplifico: compro ingredientes e faço eu mesma! Não dá tanto trabalho quanto isso, e aqueles minutos de descanso no sofá que se perdem, ganham-se em consciência ao deitar, sabendo o que enfiei na boca das minhas filhas.

Não sou dada a radicalismos e extremismos (tenho uma caixa de bolachas maria na despensa). Sobretudo, não sou dada a tomar-se acção durante uma semana, ou durante um mês. Sou apologista das melhorias que possamos fazer diariamente e que prevalecem para sempre. Prefiro o "a partir de hoje, (não) vou fazer isto", mesmo que seja uma coisa pequenina, do que o "durante esta semana, (não) vou fazer isto" e acabando essa semana tudo volta ao mesmo.

Por isso todos os dias, quando olho para o meu frigorífico, despensa e mesa de refeição, pergunto: "o que vou mudar hoje?". Um bom exercício para perceber o que devemos e não devemos comer, é perguntar-nos "o que isto me vai trazer de bom, na minha saúde e bem estar?" Já sei o que estão a pensar, uma tablete de chocolate dá um prazer do "caraças" a comer (se dá). Mas estamos a falar one day at a time. Um dia comerá a tablete inteira, depois só metade, até conseguir só comer um quadradinho, e ter o mesmo prazer. Disciplina e bom senso, é o que é preciso.



* Mesmo assim, devo deixar o alerta, que a fruta não deve constituir uma refeição isolada "pois o volume necessário para suprir as necessidades energéticas seria incomportável sob o ponto de vista de tolerância digestiva, devido ao elevado teor de fibra que poderia conduzir a desequilíbrios em micronutrientes por compromisso absortivo." (in Acta Pediátrica Portuguesa Setembro/Outubro 2012). 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

"Somos o que comemos" Grande Reportagem SIC


Hoje fomos ao supermercado comprar alguns legumes que faltavam cá em casa. Esqueci-me que era feriado e a frutaria aqui do prédio estava fechada - prefiro sempre os legumes e frutas frescas aqui da frutaria, ao invés do supermercado, mas à falta disso, o supermercado dá para remediar. O corredor das frutas e legumes, estava "minado" de ilhas com ovos, amêndoas e outras iguarias alusivas à Páscoa, rodeadas por crianças frenéticas que pediam aos pais aqueles doces e guloseimas. A L., que andava por ali ao pé de mim, enquanto eu escolhia uns tomates, brincava, fingindo que devorava todos os legumes das prateleiras, qual Monstro da Bolachas, e perguntava se podíamos levar aquele pimento, ou a couve-flor, que era muito fofinha. Lá me convenceu a trazer agriões para a sopa e tomatinhos cereja para uma salada. As outras pessoas sorriam deliciadas com a L. (e com a T. encafuada no marsúpio), com a alegria e carinho com que mexia nos legumes, com a delicadeza com que pegava nas frutas e perguntava o que era. A L. é mesmo assim, prefere uma vermelha e vibrante maçã, a um chocolate embrulhado em papel colorido brilhante.

Não podia encontrar melhor introdução, para o texto que pretendia escrever sobre a reportagem de ontem da SIC. É absolutamente assustador, percebermos que com a melhor das nossas intenções, estamos a envenenar os nossos filhos de açúcar. Como percebem pelo blog, o açúcar é um dos ingredientes que tento excluir das receitas que faço, a todo o custo. Mas infelizmente para a L., nem sempre fui a pessoa consciente em relação aos perigos do açúcar, como sou agora. Na maior das minhas inocências e na melhor das minhas intenções de nutrir a minha filha, comprava papas de pacote, atrás de papas de pacote, para a L., que comia religiosamente todos os dias. Foi um hábito que eu criei, e pelo qual sou responsável. Em relação a tudo o resto, sempre fui muito consciente, para além que a L. sempre teve um gosto particular, para não gostar de alimentos demasiados doces, e eu também não mostrei muito interesse em que comesse. 

Com o tempo, fui me interessando cada vez mais por alimentação, tanto nossa, como da L. A minha visão em relação à comida mudou radicalmente no Verão passado, quando vi o documentário "Food Matters". Aqui percebi verdadeiramente, que somos o que comemos, e que tudo que enfiamos na boca, envia uma mensagem ao nosso corpo. Não demorou muito a perceber quais os alimentos que enviavam más informações e os que enviavam boas informações. 

Desde aí, entrei na saga de meses de mudar os hábitos alimentares cá em casa. Para começar, aboli tudo o que eram alimentos processados cá em casa. Não eram muitos, mas eram os suficientes para sentir que tinham de desaparecer. Actualmente mantemos alguns refrigerantes na despensa para convidados, uma embalagem de bolachas Maria para as pequenas, e algumas caixas de cereais de pequeno-almoço (esta parte está a custar mais). Desfazer-me das caixas de papa da L. foi o mais difícil, sobretudo, porque ela não aceitava mais nada para pequeno-almoço. Foi um processo muito demorado, mas agora com alguns resultados. Continuo a ter uma caixa de papa em casa, porque a L. me pede às vezes, e a meu ver, não vem mal ao mundo se comer de vez em quando. Para já, optou por cereais de pequeno-almoço, dos que têm uma quantidade de açúcar menor que as papas (metade do açúcar), alterna com pão com compota de frutas sem adição de açúcar, e leite ou iogurte que faço em casa. Mas tento que ela varie o máximo possível, e que perceba que o pequeno-almoço pode ser diferente todos os dias, desde que tenha produto lácteo, cereais (açúcares complexos de absorção lenta) e fruta, sempre que possível. 

A T. teve mais sorte, não foi alvo dos erros que cometi com a irmã. Nasceu de uma mãe muito mais alerta e consciente em relação à alimentação dela. Embora ainda não tenha conseguido que a L. goste das papas caseiras, a T. devora-as, tal como uma papa de pacote - talvez até com mais satisfação. Também tenho papa de pacote para a T., como disse, não vem mal ao mundo comer de vez em quando. 

Como vão percebendo pelo blog, tento fazer das refeições das minhas filhas, momentos divertidos, mas saudáveis. Nutrir com muito sabor, transmitir-lhes bons ensinamentos sobre comida, que percebam o que é bom, o que é mau e sobretudo, prepara-las para o futuro, para que quando tiverem que ser elas a escolher o que vão comer, o façam bem e de forma consciente. 

Não acredito que proibir que comam determinadas coisas, faça com que depois nunca se interessem em comê-las. Acho que só vai criar ainda mais curiosidade. Quem nunca ouviu dizer que "o fruto proibido, é o mais apetecido"? Mas acredito que há momentos específicos para dar a experimentar determinadas coisas, e de certeza que não é aos 7 meses numa festa de aniversário. Para mim, deve-se esperar para que entendam, para que lambam um gelado, que os seus olhos se regalem de consolo, e que se explique que hoje está a comer um gelado, por excepção, que amanhã não comerá outro, talvez dali a umas semanas. Quanto à L., este processo foi sempre muito fácil, ela percebe, quando lhe explicamos, e porque durante meses da sua vida, foi motivada a gostar mais de outros alimentos, que chupa-chupas, chocolates ou rebuçados. No fundo é educar as crianças a comer, assim como educamos para que se portem bem. E desenganem-se que depende da criança, depende dos pais. Não é a criança que faz as compras de supermercado lá para casa, não é a criança que confecciona a comida, não é a criança que coloca o prato na mesa, não é a criança que é responsável, são os pais, os avós, os tios, os adultos. 

Não me vou alongar mais, muito havia para ser dito sobre este tema. Se não viram a reportagem, vejam, vale muito a pena. Olhem para os rótulos das coisas, e se o açúcar (nos seus mais variados nomes) aparece em primeiro ou segundo lugar na lista de ingredientes, ou se existe mais de 20gr de açúcar por cada 100gr de produto, questione-se se isso lhe parece normal. Ou melhor ainda, compre produtos sem rótulos: legumes, frutas, cereais. Com estes, não há como enganar, ou ser enganado. 

Ver a reportagem "Somos o que comemos"